quinta-feira, 13 de outubro de 2011

PROFISSÃO DOCENTE - Procura-se professor

PROFISSÃO DOCENTE
Procura-se professor

Na semana em que se comemora o Dia do Professor, próximo sábado (15), o JC publica até terça-feira
uma série de reportagens sobre temas que fazem parte do cotidiano docente. Hoje, o desinteresse pelo
magistério e a crise nas licenciaturas das faculdades privadas. Amanhã, leia sobre condições de trabalho
e violência escolar. Textos de Margarida Azevedo e Vanessa Araújo.

Se você planeja ter filhos, comece a se preocupar com o futuro educacional deles. Há poucos jovens
brasileiros dispostos a ser professor. Apenas 2% dos estudantes que terminam a educação básica
almejam a carreira docente, aponta pesquisa da Fundação Carlos Chagas. Baixa remuneração,
desvalorização social da profissão e condições de trabalho estão entre as justificativas para o
desinteresse pelo magistério no Brasil.

Não bastassem esses fatores, muitos docentes que hoje atuam na sala de aula estão se aposentando.
Em Pernambuco há 5.028 professores da rede estadual aptos a deixar as escolas este ano, segundo
Diário Oficial do mês passado. É um número grande de profissionais se afastando por aposentadoria.
Corremos o risco de não ter quem os substitua, alerta a vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores
em Educação de Pernambuco (Sintepe), Antonieta Trindade. Até 2014, diz ela, baseada nos dados da
Previdência Social do Estado, serão mais 3.516 educadores que poderão se aposentar.

Entre especialistas em educação, é consenso que um dos atuais desafios no Brasil é assegurar a
qualidade do ensino. Para isso, é preciso investir no professor, ator principal da escola, junto ao aluno.
As novas carreiras do magistério público devem orientar-se pela necessidade inadiável de articular
valorização dos professores e melhoria da aprendizagem dos alunos􀀀, observa a consultora e membro
da comissão técnica do Movimento Todos pela Educação, Mariza Abreu.
O professor Carlos Artexes, do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet-
RJ) e ex-diretor de orientação curricular do Ministério da Educação (MEC), afirma que tornar a profissão
docente atraente passa evidentemente por um piso salarial e uma carreira adequada, uma formação
inicial e continuada de qualidade, status e reconhecimento do valor social, condições de trabalho e

consolidação da profissão􀀀, ressalta Artexes. Ambos participaram do Congresso Internacional Educação:
Uma Agenda Urgente, realizado em Brasília, em setembro, pelo Todos pela Educação.

PERFIL
O perfil socioeconômico de quem escolhe a carreira docente mudou nos últimos anos, segundo a
pesquisa da Fundação Carlos Chagas, realizada em 2009. O estudo diz que a maioria pertence a famílias
das classes C e D. Além disso, pelos resultados consolidados nas análises do Exame Nacional do Ensino
Médio (Enem) de 2008, são alunos que têm dificuldades com a língua, com a leitura, escrita e
compreensão de texto, a maioria proveniente dos sistemas públicos de ensino.
O desinteresse pelo magistério é evidenciado pela baixa concorrência dos cursos de licenciaturas nos
vestibulares. Na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), maior instituição pública de ensino
superior do Estado, a disputa nas licenciaturas, em áreas carentes como física, química e matemática,
não ultrapassou quatro candidatos por vaga nos últimos cinco anos. História, a licenciatura mais
concorrida, teve no vestibular passado 6,6 inscritos por vaga. Medicina, a carreira preferida, registrou
29,9 candidatos por vaga.

Gabriel Coelho, 18 anos, diz que a sua opção de prestar
vestibular para licenciatura em geografia causa estranhamento à
maioria das pessoas. 􀀀É visto com descontentamento, porque o
professor tem uma carreira desvalorizada􀀀, conta Gabriel,
concluinte do Colégio de Aplicação da UFPE. Filho de docentes
da educação básica, ele acredita que poderá, como professor,
melhorar o País. É de sonhos de pessoas como Gabriel que
depende o futuro das novas gerações.

Instituições privadas em criseNão podemos funcionar baseados no heroísmo, diz o reitor da Universidade Católica de Pernambuco
(Unicap), padre Pedro Rubens, referindo-se à crise pela qual passam as instituições privadas que
oferecem cursos de licenciatura. É uma realidade nacional. Há cada vez menos alunos nesses cursos,
atesta o reitor, que é membro da Associação Brasileira de Universidades Comunitárias, entidade que
reúne 38 faculdades no País.

Padre Rubens diz que um dos motivos para a manutenção da oferta de licenciatura na Unicap é o papel
de instituição formadora. Continuamos por amor à causa. A Unicap nasceu da Faculdade de Filosofia e
Letras, dois cursos de formação de professores. Faz tempo que a situação das licenciaturas nos
preocupa, mas mantemos os cursos, afirma o reitor. Na década de 80, a graduação em pedagogia tinha
turma com 60 alunos. Agora não passa de 20, em média.

Em 2001, o vestibular abriu 590 vagas em sete licenciaturas e no curso de letras. Pouco mais da metade,
320, foi preenchida. Semestre passado, 10 anos depois, houve 580 vagas. Menos de um terço dos
alunos, 159, se matriculou, mesmo com o desconto de 50% no valor da mensalidade, benefício
concedido desde 2003 como forma de estimular a procura pelas graduações de formação docente.

Para o reitor, o cenário vai mudar quando se resgatar a autoestima e a autoridade do professor.
Autoridade não ligada ao autoritarismo. Mas à identidade do professor, alguém que forma, que prepara
o cidadão, comenta. Políticas públicas, na opinião dele, precisam vir junto, para incentivar a formação
inicial e continuada dos docentes. Porque não é só o custo da faculdade que distancia o aluno. Tanto
que temos bolsas de 100% do Prouni para licenciaturas que não são preenchidas, conta padre Rubens. O
Prouni é um programa do governo federal que concede bolsa para alunos pobres em faculdades
privadas.
A diretora do Centro das Licenciaturas da Fundação de Ensino Superior de Olinda (Funeso), Idalina
Borba, que tem cerca de 1.300 alunos, acredita que o problema da evasão nos cursos de magistério está
associado a três questões principais: Baixos salários, a violência nas escolas e a complexidade de
problemas que os professores têm que enfrentar acabam diminuindo a procura por essa formação,
afirma Idalina.

Ela concorda com o reitor da Unicap que essas questões passam por políticas de educação, além de
assistência social e saúde. É preciso maior investimento na formação do professor, melhores salários e
compreensão do papel do gestor na escola, observa.

Coisa de criançaDe família de docentes do interior do Estado, Tuânia dos Anjos, 23 anos, brincava de dar aulas quando
criança. A brincadeira tornou-se realidade. No fim do ano, ela se tornará professora de biologia. Vai
concluir licenciatura em ciências biológicas. Da mãe, professora da rede estadual de ensino, teve pouco
estímulo quando contou que seguiria a mesma carreira dela. Agora, ela me apóia, depois que viu minha
alegria em estar numa sala de aula, conta Tuânia, que estagia em um curso pré-vestibular mantido pela
Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), onde também estuda. Professor é maltratado, ganha
mal, não é valorizado como deveria. Mas não há como explicar a magia de uma sala de aula, o prazer de
ensinar. O reconhecimento dos alunos paga o nosso trabalho. Tenho medo sim do futuro, sobretudo,
por causa da questão financeira, mas é um risco que decidi correr. Quando estou dando aula, penso no
meu filho de dois anos. Procuro ser a professora que gostaria que ele tivesse no futuro.

Pelo mundoBaseado na avaliação internacional Pisa, o Canal Futura fez documentários com a vida escolar de países
com melhores resultados: China (1º lugar), Finlândia (3º), Coreia do Sul (5º), Canadá (7º) e Chile (melhor
na América Latina). O Brasil, que está em 53º, também tem um episódio. Estreia dia 17, às 21h.

Finlândia - O professor precisa ter, no mínimo, mestrado, inclusive para a educação infantil.
Chile - O governo começou a dar bolsa aos bons alunos que optassem por pedagogia. Os de nota
excelente ganham ajuda, em dólar, para estudar pedagogia.

Canadá - 25% do tempo do professor é dedicado à preparação de aulas e, normalmente, a dedicação é
exclusiva.

China - Em Xangai, há o professor-chefe. Cada turma tem um, escolhido no quadro da escola. Ele
acompanha os alunos e visita as famílias. 100% recebem a visita todo ano.


Fonte: Jonal do Commécio - 09/10/2011 (www.jconline.com.br)

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